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O amor


Amamos a ideia do amor como devoção, como entrega irrestrita à pessoa amada. Amamos a ideia deste amor que nos enobrece, pois nos coloca numa posição humilde, que reverencia a criatura objeto do nosso amor, em detrimento de nós mesmos. Um amor que transpõe o amor de si, este, o mais ancestral de todos. Quantas histórias românticas não foram escritas seguindo esse script heroico, de uma abnegação santificada, uma renúncia de si mesmo em favor de um outro. Uma pitada de autoflagelo é ingrediente que edifica o amor romântico. Mas em que medida colocar-se em segundo plano não é exatamente o que revela quão narcísico é o laço amoroso?

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Amamos a ideia do outro, mas amamos sobretudo a ideia que o outro tem de nós. Quando perdemos um amor, fazemos o luto daquilo que fomos para o outro. O outro leva consigo uma versão de mim que só ele acessava, pois pra ele me despi de muitas das minhas defesas. Essa é a dor maior: perceber que perdemos uma parte importante de nós mesmos, encerrada no outro e que agora este olhar sobre nós se apagou como poeira no universo. Gostamos de sustentar a ideia do amor romântico, como se o outro fosse o objeto puro e direto do sentimento mais nobre que temos a ofertar, num ato pleno de doação. O amor no entanto tem algo de labiríntico, amamos uma ideia do outro conjugada com a ideia da imagem que o outro projetou de nós. Um jogo especular que a gente, pessoas do XXI, está com medo de entrar, já que andamos jogando fora muitos dos contratos sociais e reverenciamos hoje o empoderamento, a autonomia e a independência emocional. Mas o que é viver sem se perder em alguém? O que é viver sem a mínima fusão com um outro?

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Que o amor nos livre de uma existência anódina, que ele nos fira e nos reconstitua inúmeras vezes.

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